
Vim plenamente consciente disto. Escolhi Pediatria, não por gostar de crianças (gosto, certamente), não por serem engraçadas e por serem mais genuínas. Vim porque sei que tenho esta missão, de fazer por tudo para as salvar da morte, e de, até, ajudar a morte a leva-los em paz quando assim tem que ser. Porque nem todas as crianças sorriem, como este sorria, nem todas as crianças correm, como este corria. E também às vezes a morte de uma criança vem como um alívio. Não é só a morte do velhote que sofreu anos a fio que chega como ponto final de um sofrimento arrastado. Ao contrário desse velhote, que conta com uma vida recheada de vivências e acontecimentos, para algumas crianças a vida nunca chega a se-lo. E, para algumas, desejamos que o gesto salvador nunca tivesse sido. Mas sabemos lá... Pois, as crianças também morrem. Também sofrem. Mas sou projecto de Pediatra por essas também, e talvez mesmo (quem sabe do futuro?) para essas que dançam no limbo entre a vida e a morte. E se puder fazer, realmente, a diferença para alguns dormirei tranquilo. Alguém tem que estar cá para elas. Porque ser Pediatra não é (só) ter oportunidade de lidar com crianças, como a alguns (pouco avisados) parece. É lidar com crianças doentes, e nem todas as doenças em pediatria são o ranho e a tosse. Alguns morrem, como este que não vos conto.
Um dia conto-lhe, Dr. MA, como me inspirou a querer ser mais.
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