
A perspectiva que tem um bebé no limiar da viabilidade (actualmente as 23 semanas), é muito complexa. A indução maturativa (administração à mãe de medicamentos para acelerar o amadurecimento dos pulmões e outros órgãos do bebé) e a administração de surfactante pulmonar vieram modificar muito a vida dos prematuros, trazendo-lhes uma esperança acrescida de vida. E quando se fala de um prematuro, não falamos só de vida ou morte. Falamos também (tema polémico e difícil) de QUE vida. A prematuridade extrema pode resultar em inúmeras sequelas, danos crónicos que no limite podem ser compatíveis com formas de vida muito frágeis. E portanto, não sendo Deuses, temos por vezes que nos confrontar com decisões extremamente difíceis. Investir, ou não, em salvar a vida de uma criança no limiar da viabilidade? Se investirmos em excesso estamos, nos casos limite, a prolongar a vida durante alguns dias ou semanas em condições miseráveis (tubos por todos os lados, apitos, barulhos, picadas, dor, medicamentos...), acarretando um sofrimento acrescido para os pais e bebés (e médicos...) absolutamente desnecessário. Por outro lado, em situações de fronteira, o excesso de investimento pode permitir a sobrevivência de crianças com quase nulo contacto com o exterior, com múltiplas doenças graves, com necessidade de múltiplos internamentos, com complicações atrás de complicações até que a vida se finde ao fim de alguns anos de tortura passados em camas de hospital. E se alguns deles são pelos corajosos amados (mas sempre com altos e baixos), outros são abandonados. Pareceria misericordioso, depois de corrida a tinta e espreitado o fim do livro, que se tivesse deixado pura e simplesmente a natureza seguir o seu curso, proporcionando o conforto necessário enquanto o coração se apagava. O problema é que nos falta a bola de cristal, e naquele momento nunca sabemos que tipo de vida estamos a - horrenda decisão - permitir ou impedir. E numa fracção de segundo, com três enfermeiros, um interno de pediatria, dois obstetras e um anestesista a espreitar por cima do ombro, decidir - não se crendo ou querendo ser Deus - a vida ou a morte de um ser humano. Quando o que na faculdade nos ensinam, o que as pessoas esperam de nós e o que nós queremos fazer é salvar vidas, a melhor atitude pode por vezes ser esperar, em sossego (e tumulto interior), a morte.
Três dias depois de ter nascido, depois de intubado, picado, repicado e medicado, e num aparato de apitos e alarmes, o bebé morreu.
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