12 horas apenas. São suficientes para muita água correr debaixo da ponte. E muitos doentes passarem pelo Serviço de Observação (vulgo SO). Fora as 8 altas que conseguimos dar (que rapidamente serviram para internar mais doentes), fizemos duas transferências para o serviço. Outra vaga surgiu de uma forma mais triste, um velhote muito velhinho despediu-se do mundo em silêncio. Uma senhora com 100 anos (que não tomava um único medicamento!!!) faleceu alguns dias após um AVC extenso. Numa sala mais escondida estavam dois homens que a sociedade deitou fora (ou que deitaram fora a sociedade?). Com SIDA, e com todas e mais algumas das suas complicações, decorrentes principalmente do facto de ignorarem as medicações prescritas e continuarem a utilizar drogas endovenosas (ao fim e ao cabo escolhem as drogas deles sobre as nossas...). Uns casos são simples (de diagnosticar, não de tratar), como o AVCs e as Pneumonias, e outros mais complexos. Alguns baralham-nos os diagnósticos, deixando-nos por vezes às voltas. Tentando ajudar e lidar com as situações o melhor possível.
No meio do rebuliço chegou um homem com um provável enfarte. A confirmar-se o enfarte, era o terceiro... Estava consciente, mas muito queixoso. Estava a entrar em choque (o coração já não é capaz, no choque, de bombear o sangue adequadamente), e as medidas para equilibrar a delicada balança onde o homem se encontrava não iriam durar para sempre. Entretanto, enquanto os meus colegas administravam fármacos e mais fármacos, eu fiz-lhe um ECG. Tinha de facto um enfarte, e parecia ser extenso. Rapidamente foi colocado na ambulância, para ser transferido para um local com uma unidade de angiografia (para "desobstruir" a artéria lesada) a funcionar, da qual precisava. Com ele foi um colega meu e uma enfermeira. Acabei por não saber o que lhe aconteceu, mas suspeito que o desfecho não tenha sido feliz...
A chegada do "directo" (falamos assim dos casos emergentes, pela entrada "directa" no hospital) com o enfarte interrompeu o trabalho do SO, que logo retomou o seu rumo à saida da ambulância. Um outro enfarte, esse já com alguns dias de evolução, estava a recuperar no SO. Um desfecho provavelmente diferente, felizmente, do anterior.
domingo, 11 de setembro de 2005
Medicina Interna
Começa um novo ciclo... Acaba-se a Pediatria e inicia-se o estágio na Medicina Interna. A mãe de todas as especialidades médicas hospitalares, aquela que exige os conhecimentos mais abrangentes, uma das mais maltratadas especialidades.
A Medicina Interna é uma especialidade pesada, mas muito aliciante. Lida-se diariamente com o instável equilíbrio em que vão vivendo os idosos com multipatologia, lida-se com os casos mais desafiantes do ponto de vista do diagnóstico e da terapêutica. Pensa-se muito, cada caso (do jovem ao idoso) é um desafio. Por outro lado lida-se muito com a morte, isso acontece quando a média de idades dos doentes internados ronda os 80 anos*. Lida-se com a morte num dia como um insucesso, no outro como um desfecho esperado. Por vezes com a aparente frieza de quem lida muito com ela.
Doutro ponto de vista, foi um choque voltar a observar um adulto depois de tanta criançada: mas que grandes barrigas têm os adultos!! A questão que se me colocou: "Por onde começo?!".
* Não, não é uma piada política referente às Presidenciais... Mas podia ser.
A Medicina Interna é uma especialidade pesada, mas muito aliciante. Lida-se diariamente com o instável equilíbrio em que vão vivendo os idosos com multipatologia, lida-se com os casos mais desafiantes do ponto de vista do diagnóstico e da terapêutica. Pensa-se muito, cada caso (do jovem ao idoso) é um desafio. Por outro lado lida-se muito com a morte, isso acontece quando a média de idades dos doentes internados ronda os 80 anos*. Lida-se com a morte num dia como um insucesso, no outro como um desfecho esperado. Por vezes com a aparente frieza de quem lida muito com ela.
Doutro ponto de vista, foi um choque voltar a observar um adulto depois de tanta criançada: mas que grandes barrigas têm os adultos!! A questão que se me colocou: "Por onde começo?!".
* Não, não é uma piada política referente às Presidenciais... Mas podia ser.
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Hospital
sexta-feira, 2 de setembro de 2005
Pediatria - o outro lado
Antes das mini-férias fiz um banco de Pediatria que me marcou. O primeiro bebé que vi nessa manhã tinha 2 meses de idade, o Daniel. Estava com dificuldade respiratória marcada, parecia um autêntico peixinho fora de água... A cada inspiração notava-se o esforço respiratório que ele fazia, e a cada expiração emitia um gemido (mais um sinal de dificuldade respiratória). O esforço respiratório era já prolongado, e o Daniel estava a ficar esgotado. O mais impressionante no Daniel eram os olhos, fixos no infinito. Ele estava inteiramente dedicado ao esforço respiratório, parecia absolutamente alheio a tudo o que o rodeava. A mãe do Daniel estava muito silenciosa, com os olhos húmidos e um ar apreensivo. Disse-nos que o Daniel já tinha estado com dificuldade respiratória antes, uma bronquilolite que se havia tratado algumas semanas antes com sucesso.
A auscultação pulmonar denotava também a gravidade do quadro, já practicamente que não se ouvia o ar a entrar nos pulmões do Daniel. O quadro não era para brincadeiras, e iniciámos imediatamente terapêutica pesada para reverter aquela situação. Mas rapidamente percebemos que não o Daniel não melhorava e transferimo-lo para um hospital com Unidade Pediátrica de Cuidados Intensivos. Quando a colega que o acompanhou no transporte voltou contou-nos que tiveram que o intubar e conectar ao ventilador para conseguir respirar.
Não soube nada do Daniel enquanto estive de férias, naturalmente. Quando voltei lembrei-me de perguntar o que tinha então acontecido ao menino. A minha colega fez um ar gravoso e explicou-me que o Daniel não tinha sobrevivido. Recebi a notícia com espanto, a insuficiência respiratória dele não parecia justificar tamanho desfecho, especialmente sabendo que estava já ventilado... Parece que tinha uma infecção viral grave, com atingimento do coração também, atingimento esse que acabou por ser fatal... Recebi esta notícia quando estava de urgência. Por muito que doesse, tinha dezenas de meninos doentes para ver. Tive naturalmente que seguir em frente, e agir como se nada fosse. Frieza? Não, não... O que custou foi dormir, nessa noite... Este é o lado negro da Pediatria...
A auscultação pulmonar denotava também a gravidade do quadro, já practicamente que não se ouvia o ar a entrar nos pulmões do Daniel. O quadro não era para brincadeiras, e iniciámos imediatamente terapêutica pesada para reverter aquela situação. Mas rapidamente percebemos que não o Daniel não melhorava e transferimo-lo para um hospital com Unidade Pediátrica de Cuidados Intensivos. Quando a colega que o acompanhou no transporte voltou contou-nos que tiveram que o intubar e conectar ao ventilador para conseguir respirar.
Não soube nada do Daniel enquanto estive de férias, naturalmente. Quando voltei lembrei-me de perguntar o que tinha então acontecido ao menino. A minha colega fez um ar gravoso e explicou-me que o Daniel não tinha sobrevivido. Recebi a notícia com espanto, a insuficiência respiratória dele não parecia justificar tamanho desfecho, especialmente sabendo que estava já ventilado... Parece que tinha uma infecção viral grave, com atingimento do coração também, atingimento esse que acabou por ser fatal... Recebi esta notícia quando estava de urgência. Por muito que doesse, tinha dezenas de meninos doentes para ver. Tive naturalmente que seguir em frente, e agir como se nada fosse. Frieza? Não, não... O que custou foi dormir, nessa noite... Este é o lado negro da Pediatria...
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Hospital
sábado, 27 de agosto de 2005
Verde?!
O Gonçalo tem 5 anos, e está farto de médicos até à raiz dos cabelos. Conhece demasiado bem os corredores do hospital, desde a Urgência Pediátrica até ao IPO de Lisboa. Felizmente esta é uma história feliz, tanto quanto se pode dizer até agora. O Gonçalo teve um linfoma, um cancro dos órgãos linfóides (gânglios linfáticos, baço...), há cerca de um ano, e fez umas valentes doses de quimioterapia. Entrou naquilo que chamamos remissão completa, ou seja, deixou de ter evidência clínica e laboratorial da existência da neoplasia. Este termo, apesar de injectar de esperança quem o ouve, não quer dizer que é garantido que a doença não volte a aparecer. E a mãe do Gonçalo sabe bem disso. Por isso, ao mínimo sinal de alarme, leva-o à Urgência Pediátrica.
Foi na Urgencia Pediátrica que eu conheci o Gonçalo. Nesse dia vinha, como ele disse, vestido "à Sportinguista". Trazia o equipamento completo do Sporting, do boné até às meias. A mãe tinha-o trazido por ter encontrado algumas "nódoas negras" nos ombros do Gonçalo. Ela sabe que isso pode ser um sinal de que as plaquetas estão baixas, o que no caso do Gonçalo pode avisar para uma recidiva da neoplasia. No entanto um problema surgiu: o Gonçalo recusava-se a despir o equipamento do Sporting para mostrar as "manchinhas" à minha colega. Ninguém queria ter de o despir à força, mas as falinhas mansas não estavam a resultar. Foi neste momento que me lembrei de uma coisa, absolutamente infantil, mas que acabou por resultar... Entrei na brincadeira com ele por estar verde da cabeça aos pés, e insinuei que teria também a barriga verde. Desatou-se a rir de mim, como quem diz "mas olha lá este palerma que diz que a minha barriga é verde!!", e mostrou-me, orgulhoso, a sua barriga branquinha. A seguir eu fui dizendo que as costas estavam verdes, que os pés estavam verdes, que o rabo estava verde, e em menos de um minuto tinha o Gonçalo completamente despido a rir à gargalhada daquele médico tão palerma. Assim conseguimos ver-lhe todas as lesões, procurar mais algumas, e palpar-lhe a barriga, ausculta-lo (tinha também, segundo eu, o coração verde - tinha que ver se rugia como o leão) e procurar gânglios aumentados de volume. Felizmente não tinha nada de especial clinicamente, e as análises revelaram-se perfeitamente normais. As "nódoas negras" eram provavelmente, como as de todas as outras crianças, resultado das brincadeiras próprias de uma criança daquela idade. Todos ficámos mais descansados, e o Gonçalo foi com a mãe e com a mana para casa, brincar "aos Sportinguistas"!...
Foi na Urgencia Pediátrica que eu conheci o Gonçalo. Nesse dia vinha, como ele disse, vestido "à Sportinguista". Trazia o equipamento completo do Sporting, do boné até às meias. A mãe tinha-o trazido por ter encontrado algumas "nódoas negras" nos ombros do Gonçalo. Ela sabe que isso pode ser um sinal de que as plaquetas estão baixas, o que no caso do Gonçalo pode avisar para uma recidiva da neoplasia. No entanto um problema surgiu: o Gonçalo recusava-se a despir o equipamento do Sporting para mostrar as "manchinhas" à minha colega. Ninguém queria ter de o despir à força, mas as falinhas mansas não estavam a resultar. Foi neste momento que me lembrei de uma coisa, absolutamente infantil, mas que acabou por resultar... Entrei na brincadeira com ele por estar verde da cabeça aos pés, e insinuei que teria também a barriga verde. Desatou-se a rir de mim, como quem diz "mas olha lá este palerma que diz que a minha barriga é verde!!", e mostrou-me, orgulhoso, a sua barriga branquinha. A seguir eu fui dizendo que as costas estavam verdes, que os pés estavam verdes, que o rabo estava verde, e em menos de um minuto tinha o Gonçalo completamente despido a rir à gargalhada daquele médico tão palerma. Assim conseguimos ver-lhe todas as lesões, procurar mais algumas, e palpar-lhe a barriga, ausculta-lo (tinha também, segundo eu, o coração verde - tinha que ver se rugia como o leão) e procurar gânglios aumentados de volume. Felizmente não tinha nada de especial clinicamente, e as análises revelaram-se perfeitamente normais. As "nódoas negras" eram provavelmente, como as de todas as outras crianças, resultado das brincadeiras próprias de uma criança daquela idade. Todos ficámos mais descansados, e o Gonçalo foi com a mãe e com a mana para casa, brincar "aos Sportinguistas"!...
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Hospital
quarta-feira, 17 de agosto de 2005
sábado, 13 de agosto de 2005
sexta-feira, 29 de julho de 2005
Contrastes II
Em extremos opostos da mesma enfermaria, dois casos nos extremos opostos do espectro possível no Puerpério.
Na cama 1 está a Vanessa. Acabou de ter um filho com o qual provavelmente não contava. A Vanessa tem 15 anos de idade, e acabou agora de ser mãe de um pequeno boneco, o seu primeiro filho. Como é alta conseguiu esconder a gravidez do mundo durante bastante tempo. Apenas no terceiro trimestre da gravidez a situação se tornou excessivamente evidente para que a família desse pelo sucedido. Assim, teve duas consultas médicas, fez apenas uma ecografia, e fez uma vez só as análises laboratoriais de rotina da gravidez. Felizmente nada de especial aconteceu. O bebé nasceu bem, está perfeitamente saudável, e toda a embrulhada acabou por se resolver da melhor maneira. A embrulhada que se segue é saber se a Vanessa, que ganhou o epíteto de mãe-adolescente, é capaz de educar convenientemente o bebé... Felizmente para os dois, a Vanessa estabeleceu uma boa relação com ele. Sorri, deliciada, quando lhe mostro que o seu bebé já sabe "andar". Pode ser que os instintos lhe incutam a responsabilidade que ela precisa de ter... Oxalá!
Na cama 4 está a Luísa. Tem o dobro da idade da Vanessa, mas uma experiência "gestacional" semelhante. O bebé que, atrapalhado, tenta perceber como se mama, é o primeiro filho da Luísa. É um bebé de ouro, ou seja, é o resultado de vários anos de tratamentos para a infertilidade. Provavelmente poucos filhos são tão desejados como os "bebés de ouro". A mãe sorri, quando uso a expressão, diz-me que de facto vale o seu peso em ouro. Teve 10 consultas médicas da gravidez, fez 8 ecografias e fez as análises de rotina dos três trimestres da gravidez. Felizmente teve a mesma sorte da Vanessa, tudo correu bem na gravidez e o bebé está óptimo. A Luísa sorri, aliviada, quando lho digo depois de "virar a criança do avesso".
Deixei a Luísa e a Vanessa entretidas a dar de mamar aos seus rebentos, ambos "trapalhões" na altura de mamar.
E assim acabei o meu estágio no Puerpério, na próxima segunda-feira vou para a Enfermaria de Pediatria. Não sem antes fazer um "banquinho" de Domingo... Ah, como vai ser bom estar fora das filas para o Algarve... Ou não?...
Na cama 1 está a Vanessa. Acabou de ter um filho com o qual provavelmente não contava. A Vanessa tem 15 anos de idade, e acabou agora de ser mãe de um pequeno boneco, o seu primeiro filho. Como é alta conseguiu esconder a gravidez do mundo durante bastante tempo. Apenas no terceiro trimestre da gravidez a situação se tornou excessivamente evidente para que a família desse pelo sucedido. Assim, teve duas consultas médicas, fez apenas uma ecografia, e fez uma vez só as análises laboratoriais de rotina da gravidez. Felizmente nada de especial aconteceu. O bebé nasceu bem, está perfeitamente saudável, e toda a embrulhada acabou por se resolver da melhor maneira. A embrulhada que se segue é saber se a Vanessa, que ganhou o epíteto de mãe-adolescente, é capaz de educar convenientemente o bebé... Felizmente para os dois, a Vanessa estabeleceu uma boa relação com ele. Sorri, deliciada, quando lhe mostro que o seu bebé já sabe "andar". Pode ser que os instintos lhe incutam a responsabilidade que ela precisa de ter... Oxalá!
Na cama 4 está a Luísa. Tem o dobro da idade da Vanessa, mas uma experiência "gestacional" semelhante. O bebé que, atrapalhado, tenta perceber como se mama, é o primeiro filho da Luísa. É um bebé de ouro, ou seja, é o resultado de vários anos de tratamentos para a infertilidade. Provavelmente poucos filhos são tão desejados como os "bebés de ouro". A mãe sorri, quando uso a expressão, diz-me que de facto vale o seu peso em ouro. Teve 10 consultas médicas da gravidez, fez 8 ecografias e fez as análises de rotina dos três trimestres da gravidez. Felizmente teve a mesma sorte da Vanessa, tudo correu bem na gravidez e o bebé está óptimo. A Luísa sorri, aliviada, quando lho digo depois de "virar a criança do avesso".
Deixei a Luísa e a Vanessa entretidas a dar de mamar aos seus rebentos, ambos "trapalhões" na altura de mamar.
E assim acabei o meu estágio no Puerpério, na próxima segunda-feira vou para a Enfermaria de Pediatria. Não sem antes fazer um "banquinho" de Domingo... Ah, como vai ser bom estar fora das filas para o Algarve... Ou não?...
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Hospital
segunda-feira, 25 de julho de 2005
Maldades
Tenho estado a trabalhar no Puerpério. O Puerpério é o serviço onde são internadas as recém-mamãs e os seus recém-nascidos antes de terem alta do hospital. E, uma vez que estou a estagiar na Pediatria, o meu trabalho consiste em observar recém-nascidos. Aquelas que já são mães sabem bem do que falo... Eu sou aquele que diz "Bom dia mãe" e depois desata a virar o crianço do avesso, a faz berrar em plenos pulmões, ausculta, vira, palpa, vira, tira a fralda, estica as pernas, encolhe as pernas, põe a fralda, senta, deita, vira... Enfim... O objectivo é saber se está tudo bem (dentro de certos limites, claro) com o bebé. E depois, quando algo não está perfeito, tenho feito algo que julgei nunca vir a ser capaz: tirar sangue a recém-nascidos... De facto não é nada fácil, não só em termos emocionais mas especialmente do ponto de vista técnico. Naturalmente, as veias das criaturas são à sua medida: minúsculas. Mas enfim, com prática tudo se faz.
Daqui se explica o meu silêncio nos últimos tempos: tenho apanhado quase só crianças saudáveis - uma excelente vertente da Pediatria. E ainda bem que é assim...
Daqui se explica o meu silêncio nos últimos tempos: tenho apanhado quase só crianças saudáveis - uma excelente vertente da Pediatria. E ainda bem que é assim...
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Hospital
terça-feira, 19 de julho de 2005
Gatos e Melancias
Como já devem ter percebido, isto tem andado um bocado parado por estas bandas... Enfim, alturas complicadas! Mas eu volto já...
Fiquem com o (único?) gato que gosta de mordiscar melancia. Será que lhe devia chamar Magali?

Fiquem com o (único?) gato que gosta de mordiscar melancia. Será que lhe devia chamar Magali?

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Fotos
sábado, 9 de julho de 2005
Viroses
Em resposta a um desafio da Sílvia na última caixa de comentários, decidi comentar o seu post "Lá vai uma, lá vão duas, três viroses a voar...". Mas, e porque acho que esta resposta é capaz de ser útil a muita gente, decidi comenta-la em forma de post. E também porque isto faz parte do dia a dia da Urgência de Pediatria, onde estive anteontem a diagnosticar viroses.
As crianças infectam-se muitas vezes. Que o digam os pais das crianças, que passam a vida a correr para o médico (nos consultórios, SAPs e Urgências Hospitalares) com as "espirrantes" e "tossidoras" crianças. Essas infecções ocorrem mais frequentemente quando a criança anda no infantário, na ama, ou simplesmente está frequentemente em contacto com irmãos ou primos em idade escolar.
Está, hoje em dia, generalizado na sociedade portuguesa que os antibióticos são a panaceia de todas as infecções. No entanto, convém explicar que os antibióticos só resolvem as infecções bacterianas, e aos vírus não fazem nem cócegas. Mais importante ainda do que explicar isto, é essencial que se perceba que a grande maioria das infecções nas crianças (e é de facto uma GRANDE maioria) são infecções virais. Os vírus que as provocam são vários: o Vírus Sincicial Respiratório, o Echovírus, Vírus Coxsackie de várias estirpes, Enterovírus, Adenovírus, etc, etc... Por outro lado, é importante também perceber que a ENORME maioria destas infecções virais são infecções sem quaisquer repercussões graves e autolimitadas (o que quer dizer que não há nada que possamos fazer para diminuir a duração da doença, podemos apenas diminuir os seus sintomas com anti-inflamatórios, anti-histamínicos, etc, quando justificável). E por esse motivo, não nos interessa saber qual é o vírus que provoca a infecção: qualquer que ele seja, há uma muito grande probabilidade que não tenha repercussões importantes que necessitemos de controlar de outra forma (desde aerossóis a intubação - mas não antibióticos).
Não se interprete do texto acima que os antibióticos nunca devem ser usados... Devem ser usados, sim, mas nas infecções bacterianas! E há muitos sintomas contados pelos pais e pelas crianças, e sinais obtidos na observação da criança que mostram se a infecção é viral ou bacteriana... Dessa forma, é possível com segurança decidir quando dar ou não um antibiótico. Naturalmente, há infecções bacterianas que nas fases mais precoces da sua apresentação parecem muito semelhantes às infecções virais. E são diagnosticadas, numa primeira observação, como tal. E é por isso que os médicos avisam que, caso a criança não melhore em 4/5 dias ou apresente algum dos sinais de alarme (que dependem da localização da infecção) a devem levar novamente ao médico. E aí, talvez as evidências da infecção bacteriana estejam presentes (ou uma infecção previamente viral sobre-infecte com uma bactéria) e seja necessário o antibiótico.
Por outro lado, há também infecções virais graves, mas que são em regra tão raras que costumam aparecer na televisão... Essas sim, podem justificar a identificação do vírus.
Por isso, um conselho a todos os pais que me lêem: não corram de médico em médico à procura daquele que "pelo sim pelo não" receita antibiótico (e, mais grave ainda, não peçam antibióticos na farmácia sem receita...). Os antibióticos não são livres de efeitos adversos, não são fármacos que se dêem de ânimo leve a uma criança pelas consequências nefastas que podem trazer. E, já agora, aquele que receita/cede o antibiótico sem indicação para tal está a cometer um erro, seja o médico ou o farmacêutico/técnico de farmácia...
As crianças infectam-se muitas vezes. Que o digam os pais das crianças, que passam a vida a correr para o médico (nos consultórios, SAPs e Urgências Hospitalares) com as "espirrantes" e "tossidoras" crianças. Essas infecções ocorrem mais frequentemente quando a criança anda no infantário, na ama, ou simplesmente está frequentemente em contacto com irmãos ou primos em idade escolar.
Está, hoje em dia, generalizado na sociedade portuguesa que os antibióticos são a panaceia de todas as infecções. No entanto, convém explicar que os antibióticos só resolvem as infecções bacterianas, e aos vírus não fazem nem cócegas. Mais importante ainda do que explicar isto, é essencial que se perceba que a grande maioria das infecções nas crianças (e é de facto uma GRANDE maioria) são infecções virais. Os vírus que as provocam são vários: o Vírus Sincicial Respiratório, o Echovírus, Vírus Coxsackie de várias estirpes, Enterovírus, Adenovírus, etc, etc... Por outro lado, é importante também perceber que a ENORME maioria destas infecções virais são infecções sem quaisquer repercussões graves e autolimitadas (o que quer dizer que não há nada que possamos fazer para diminuir a duração da doença, podemos apenas diminuir os seus sintomas com anti-inflamatórios, anti-histamínicos, etc, quando justificável). E por esse motivo, não nos interessa saber qual é o vírus que provoca a infecção: qualquer que ele seja, há uma muito grande probabilidade que não tenha repercussões importantes que necessitemos de controlar de outra forma (desde aerossóis a intubação - mas não antibióticos).
Não se interprete do texto acima que os antibióticos nunca devem ser usados... Devem ser usados, sim, mas nas infecções bacterianas! E há muitos sintomas contados pelos pais e pelas crianças, e sinais obtidos na observação da criança que mostram se a infecção é viral ou bacteriana... Dessa forma, é possível com segurança decidir quando dar ou não um antibiótico. Naturalmente, há infecções bacterianas que nas fases mais precoces da sua apresentação parecem muito semelhantes às infecções virais. E são diagnosticadas, numa primeira observação, como tal. E é por isso que os médicos avisam que, caso a criança não melhore em 4/5 dias ou apresente algum dos sinais de alarme (que dependem da localização da infecção) a devem levar novamente ao médico. E aí, talvez as evidências da infecção bacteriana estejam presentes (ou uma infecção previamente viral sobre-infecte com uma bactéria) e seja necessário o antibiótico.
Por outro lado, há também infecções virais graves, mas que são em regra tão raras que costumam aparecer na televisão... Essas sim, podem justificar a identificação do vírus.
Por isso, um conselho a todos os pais que me lêem: não corram de médico em médico à procura daquele que "pelo sim pelo não" receita antibiótico (e, mais grave ainda, não peçam antibióticos na farmácia sem receita...). Os antibióticos não são livres de efeitos adversos, não são fármacos que se dêem de ânimo leve a uma criança pelas consequências nefastas que podem trazer. E, já agora, aquele que receita/cede o antibiótico sem indicação para tal está a cometer um erro, seja o médico ou o farmacêutico/técnico de farmácia...
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