quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005

Fel (parte 2)

O meu primeiro contacto com a Ana foi relativamente assustador. Tinha ambos os membros superiores ligados, para tentar reduzir os inchaços, e tinha o tórax enfaixado como forma de fazer o penso da lesão na mama esquerda. A face estava extremamente inchada, não tinha cabelo, e falava com muita dificuldade. A sua voz era muito rouca, quase inaudível. Não conseguia andar, e estava sentada no cadeirão. Tinha uma dificuldade respiratória marcada, não conseguindo articular uma frase seguida sem parar para ganhar fôlego. Sentei-me ao lado dela e falei com ela durante algum tempo, tentando perceber tudo o que se tinha passado e estaria a passar naquele momento. Um enfermeiro veio mudar o penso entretanto, e pude observar horrorizado a lesão que tinha no tórax. Era uma massa enorme, com aproximadamente 20 cm de diâmetro, arroxeada, com uma cratera no centro de onde saía tecido necrosado e pús com abundância. A imagem era assustadora, e a Ana olhava para ela com a indiferença de quem conhece bem o seu inimigo.

O problema que tinha levado a Ana às Urgências parecia corresponder à primeira vista ao chamado "Síndrome da Veia Cava Superior". Isto significa que por algum motivo a veia que leva ao coração o sangue proveniente da cabeça e membros superiores não estava a drenar o sangue adequadamente, pelo que estes territórios estavam inchados. O mais provável, tendo em conta a neoplasia da mama em estadio avançado, era que uma metástase estivesse a comprimir essa veia. Por esse motivo pedimos uma TAC torácica. Esta confirmou as nossas suspeitas: havia uma metástase a comprimir a Veia Cava Superior. Iniciou imediatamente radioterapia dirigida especificamente àquela metástase, em acordo com o oncologista que a seguia. O objectivo era reduzir as dimensões daquela metástase para que o sangue fluisse normalmente e pudessemos providenciar um pouco mais de qualidade de vida à Ana.
A TAC mostrou-nos ainda a presença de múltiplas metástases pulmonares e um derrame pleural extenso à direita (líquido em volta do pulmão). Quanto às metástases, nada podíamos fazer, mas o derrame agravava a falta de ar. Decidimos por esse motivo drenar o líquido do pulmão, para melhorar a falta de ar que ela sentia. Assim fizémos.
O internamento foi muito prolongado, e recheado de complicações. Surgiu uma peumonia grave, que tratámos com os antibióticos adequados. O derrame pleural voltou a aparecer, e foram tentadas várias técnicas para impedir o seu reaparecimento, com sucesso limitado. O "inchaço" foi melhorando progressivamente, e a falta de ar foi também melhorando com os sucessivos tratamentos. Aos poucos foi recuperando um pouco da sua autonomia, passando a ser capaz de se alimentar sozinha, se bem que com muita dificuldade.

O António estava sempre presente. Estava muitíssimo perturbado por toda aquela situação, e mantinha a ilusão de a levar novamente para Espanha depois do internamento para retomar a quimioterapia experimental. Todos os dias falava com os enfermeiros responsáveis pela Ana, pressionando para que eles agissem desta e daquela forma. Perguntava coisas sobre os tratamentos que lhe estavam a ser feitos e duvidava constantemente da nossa competência. Todos os dias falava comigo. Perguntava-me pelo estado dela, e questionava a eficácia dos tratamentos que lhe estavam a ser efectuados. Fui sempre absolutamente honesto com ele, e por mais do que uma vez o levei para a sala dos médicos, sentei-me ao lado dele e expliquei-lhe a extrema gravidade e irreversibilidade da situação da Ana. Após essas francas conversas (e sempre na presença de uma médica mais graduada, já que eu era apenas um aluno de 6º ano), ele parecia ceder um pouco mais à cruel realidade da situação que destruia a Ana e a matava um pouco mais a cada dia que passava. Inexoravelmente.

Continua...

terça-feira, 15 de fevereiro de 2005

Uma ajudinha

Marido e mulher entram no consultório em simultâneo. Quem tem consulta é ele, ela vem "para controlar", palavras ditas por ela mesma. Ele sorri, com um sorriso malandro, sabe o que quer esconder. Sabe também que não esconde, que está às claras. Antes do mais chegam os pseudo-motivos de consulta. "É para o Check-up", dizem. Quere um exame ao coração, quer isto e aquilo, e a mulher exige mais alguma coisinha. Fala das dores e mores dores, entre "ai!" e "ui!", "quando carreg-ah!-ah!-ah! aí mesmo!!!".
No final da consulta, com descontracção, conta-nos que não tem potência sexual (estes assuntos, que realmente levam as pessoas ao Centro de saúde, ficam sempre para o fim, depois de um "Ah, é verdade, mais uma coisinha..."). A mulher salta em sua defesa: "Ai, para o que é chega doutora!! Está muito bem assim, deixe-o estar!". Indiferente às palavras da mulher, continua: "Mas não é a mesma coisa de antes... Antes chegava e sobrava, entende? Agora fraqueja mais... Não me dá aí uma ajudinha? Tenho um amigo que faz o Cialis, diz que aquilo agora é que é uma bomba!!". A mulher não se deixa calar, e explica que se é só para ela chega. Reclama "Está MUITO bem assim! É da maneira que sei o que não fazes!...". Dou uma olhadela pelo canto do olho ao processo clínico dele, e percebo que tinha vindo há uns tempos à consulta preocupado com doenças venéreas. Ele ignora a presença da mulher em absoluto, e com um sorriso malandro diz mais uma vez "Passe lá aí os comprimidinhos para eu fazer a minha vidinha...". A mulher bufa e estrebucha, e sai bufando e estrebuchando atrás dele do consultório...

sábado, 12 de fevereiro de 2005

Fel (parte 1)

A Ana tinha descoberto aos 35 anos que tinha um cancro da mama direita. Fez na altura mastectomia radical (remoção da mama direita por inteiro) e quimioterapia. Quando tudo parecia controlado, apareceu uma metástase (massa tumoral originária do mesmo tumor mas numa localização diferente) na mama esquerda. Mais uma vez, desta feita aos 38 anos, fez mastectomia radical esquerda, e novamente quimioterapia.
Com o passar do tempo começou a perceber-se que o pesadelo não tinha passado, estava apenas adormecido. Surgiu uma recidiva local (reaparecimento no mesmo sítio) da metástase na mama esquerda, e as sucessivas tentativas de remoção do tumor pareciam ineficazes. Voltava sempre a aparecer.
Aos poucos começavam a manifestar-se metástases noutros locais. Uma metástase numa vértebra atirou-a para a cama. O crescimento desta metástase comprimia-lhe a medula espinhal de forma tal que practicamente lhe paralisava ambas as pernas. Fez radioterapia dirigida a esta metástase, para a fazer diminuir de tamanho e tentar recuperar um pouco a capacidade de andar. As melhoras que teve, pouco duradouras, permitiam-lhe apenas deslocar-se com ajuda.
Também no cérebro existiam metástases. Suspeitou-se da sua existência pelas dores de cabeça que a Ana referia, bem como falta de força no braço esquerdo. Os pulmões também não escaparam, e as metástases pulmonares provocavam-lhe uma falta de ar constante. Perto dos pulmões, metástases nos gânglios linfáticos comprimiam-lhe o esófago, pelo que tinha dificuldade em engolir. Comprimiam ainda um nervo que inerva as cordas vocais, pelo que ficou muito rouca. Fazia-se entender com muita dificuldade, faltava-lhe a rouca voz que lhe restava.
Foi sempre, ao longo da evolução da sua doença, seguida por um oncologista (especialista em cancro). Visto tratar-se de uma mulher muito nova foram tentadas todas as técnicas terapêuticas conhecidas. Fez inúmeros ciclos de quimioterapia e radioterapia, cujos efeitos devastadores a debilitavam para além do que a própria doença era capaz.
O António, o seu marido, sofreu muito durante todo este tempo. Esteve sempre presente ao seu lado, sempre muito preocupado com o seu bem estar. Mais do que isso, o António sempre se recusou, até mesmo quando o oncologista o disse a olhar-lhe nos olhos, a admitir que era chegada a altura de deixar a morte chegar. Não acreditava que diminuir o sofrimento fosse a única coisa passível de ser feita. Levou a Ana para Espanha para fazer quimioterapia experimental. O oncologista, avisando da fatalidade da evolução da doença naquela fase avançada, não lhe negou essa tentativa. Poderia ele extirpar o último fio de esperança que o António e a Ana fitavam no horizonte? Ciclos poderosíssimos de quimioterapia experimental, cuja eficácia não estava demonstrada, debilitaram a Ana de uma forma extrema. E, como tinha sido dito pelo oncologista, não curaram a doença. Nem sequer atrasaram a sua progressão.
Alguns dias depois do regresso de Espanha surgiu um novo sintoma. Toda a face e membros superiores estavam "inchados". Foi por esse motivo que se deslocou às Urgências de um grande Hospital de Lisboa. Ficou internada no Serviço de Medicina Interna onde eu estagiava como aluno do 6º ano, ao cuidado da minha orientadora de estágio.

Continua...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005

O José e os seus

Hoje o José é o Rei da Pérsia. Está sentado na sua cadeira, grande barriga saliente, espetada na nossa direcção. Assim o intitulamos. Corrige, não é o Rei da Pérsia, isso pensamos nós. É o Presidente dos Estados Unidos. Falta-lhe o ar néscio, mas fingimos acreditar. A mãe do Rei da Pér... perdão, do Senhor Presidente, está sentada na cadeira do lado. Está com um ar bastante deprimido. O marido, constatamos no processo clínico, já não vem à consulta há três anos, o que se passa? Bebe muito, o pai do Senhor Presidente. Bebe demais, bate na mulher e no filho. A outra filha já saiu de casa, namora com um tipo que parece que lhe está a meter um pouco de juizo na cabeça. As drogas duras tiraram-na de casa, parece que o novo namorado a tirou da rua. A mãe está de facto com um ar bastante deprimido. Uma olhadela pelo canto do olho para o processo clínico, percebo que já está a fazer antidepressivos e ansiolíticos em doses simpáticas. O José ri-se, ri-se da Indira Gandhi, que faz perguntas estranhas à mãe sobre os vícios do pai. A personagem que encarna muda consoante a consulta, bem como a da médica de família. Na verdade não são personagens, peço desculpa Senhor Presidente, são a verdade absoluta do momento. O José não é alcoólico como o pai (apesar de já ter passado por isso), nem toxicodependente como a irmã. É esquizofrénico. E a mãe, a mãe do Senhor Presidente (que na última consulta era o Napoleão), mãe da Inês (aquela que talvez se safe por causa do namorado novo, ou talvez não), mãe do próprio marido (que a agride embriagado com a visão toldada pelo álcool, e porque não quando está sóbrio, mas menos...), é deprimida. Não é alcoólica, toxicodependente ou mesmo esquizofrénica. É realista.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2005

O infinito mundo do papel

Vivemos no país do papel. Precisamos de papéis para tudo, desde que nascemos, passando pela escola, pelo desporto, pela faculdade, pela vida profissional, pelo casamento, pelo divórcio... Desconfio que até para morrer temos que ter um atestado médico em como estávamos vivos a priori... Para tudo precisamos de certificados, atestados, comprovativos.

O médico, especialmente o Clínico Geral, não foge à regra. Fora todos os papéis que tem que tratar para seguir a sua vida normal, no trabalho enfrenta uma pilha de papéis para tratar, que distraem e ocupam o médico afastando-o do seu verdadeiro objecto de trabalho: o doente.
Por um lado temos a repetida exigência da responsabilização do médico para a desresponsabilização da sociedade. Hoje em dia é preciso atestado médico para fazer um contrato, para entrar para a ginástica, para a escola, para a faculdade, para faltar ao emprego e até, imagine-se, para estacionar o carro dentro do cemitério. Estranho mas verídico: na cidade onde trabalho o familiar de um doente falecido precisa de declaração médica para estacionar o carro no interior do cemitério, alegando que está impossibilitado de se deslocar até à campa por motivos de saúde. É que o cemitério é grande... As companhias de seguros, as escolas, as empresas, os ginásios e até, imagine-se, os cemitérios, desresponsabilizam-se de todo e qualquer mal que possa acontecer, responsabilizando o médico por tudo e por nada. Mas alguém acredita que um atestado de robustez física é absolutamente fidedigno? Mesmo que o médico que o passe faça um exame objectivo completíssimo, faça uma série de exames complementares de diagnóstico da mais alta tecnologia, isso iliba o doente de adoecer? Por muito apertado que seja o crivo, há sempre situações inesperadas! E se elas surgem quem é responsável? O médico, claro.
Depois vêm as receitas. Todos os dias o Clínico Geral tem uma pilha de receitas para passar, que os doentes deixam nas administrativas. Não são duas ou três receitas: na sexta-feira eu e a minha tutora estivémos 1h30 a passar receitas, declarações e exames complementares de forma ininterrupta. No final, tinhamos uma pilha de receitas enorme, todas passadinhas. À mão, porque infelizmente a informatização está longe, muito longe, de chegar a todos os Centros de Saúde. E nessa hora e meia, que seriam duas horas e meia se eu não estivesse a ajudar, quantas consultas poderiam ser feitas?! Quantos doentes deixavam de ir para casa a resmungar com o médico, o governo e o mundo porque já não havia consultas para hoje, apesar de ter chegado ao CS às 8h30 da manhã? Isto, claro, não esquecendo que o grau de satisfação do Clínico Geral seria superior se se dedicasse mais aos doentes e menos aos papéis, o que aumentaria exponencialmente a sua produtividade...
Claro que há regras a cumprir ao preencher os mil e um papéis... Se é ADSE, a receita vai no papel preformatado, mas se é ADME já não... Mas para os exames complementares só o SNS vai no papel verde, para os outros subsistemas vai no papelinho branco timbrado. Há depois o papel castanho para a referenciação para o Hospital, que serve também para as fisioterapias, justificação de exames complementares de diagnóstico, etc... Ah, e quanto a esses, há alguns que têm que ser assinados pela Directora do Centro, que assina de cruz porque não vai questionar a competência do colega. Para a função pública passam-se atestados, para os outros tem que ir o papel da baixa. Todos os papéis precisam da mágica vinheta cor-de-burro-quando-foge, sinal do poder burocrático do médico. Não esquecer ainda que, no Hospital, o número da Ordem dos Médicos se põe nas requisições do serviço de sangue, enquanto que nas do Laboratório tem que ir o número mecanográfico do hospital...

Vivemos no infinito mundo do papel. Se simplificarmos um pouco as coisas, mantendo obviamente a segurança, rigor e inviolabilidade indispensáveis a estas coisas, trabalhamos todos mais felizes e produzimos todos mais trabalho. E trabalho é riqueza, pessoal e colectiva. Como dizia o outro, "Deixem-nos trabalhar!!".

sábado, 5 de fevereiro de 2005

Uma história entre muitas

Chamámos pelo intercomunicador a doente seguinte. Antes disso, a minha tutora explicou-me a história da doente.
Era a Andreia, de 35 anos. Tinha iniciado, há um ano atrás, um quadro de dificuldade em engolir e sensação de enfartamento. Tinha dores abdominais, e perdeu alguns quilos num curto espaço de tempo. Através de uma endoscopia (exame em que um tubo é introduzido pela boca para observar o interior do esófago e estômago) foi-lhe diagnosticado um tumor gástrico (cancro do estômago). As primeiras palavras da Andreia, ao tornar-se conhecedora do diagnóstico, foram de esperança e confiança. Foi adequadamente referenciada, tendo sido operada no IPO. Foi-lhe removido todo o estômago. A Anatomia Patológica confirmou o diagnóstico, era de facto um tumor do estômago. Felizmente parecia não haver quaisquer metástases, parecia estar de facto confinado ao estômago.
Passado algum tempo da cirurgia, regressou à consulta de Clínica Geral. Tinham recomeçado as queixas, em tudo semelhantes às anteriores. O tumor tinha recidivado. Continuou a ser seguida no IPO, onde ponderam agora as terapêuticas possíveis.

Entrou no consultório, onde vinha pedir o prolongamento da baixa. Vinha com duas crianças pela mão. O mais pequeno tinha 1 ano e meio, e estava, sorridente ao colo da mãe. A mais velha, com 10 anos, olhava, cabisbaixa, para o chão. Acompanhava sempre a mãe nas suas frequentes visitas aos médicos. Não esboçou um sorriso durante a consulta, nem mesmo quando a minha tutora elogiou as madeixas vermelhas do cabelo dela. A mãe, essa, não tinha mais palavras de optimismo e esperança. Tinha o desalento estampado no rosto, a tristeza no olhar, e a morte no pensamento.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005

O Clínico Geral (3)

Antes de mandar entrar o doente seguinte a minha tutora de Clínica Geral disse-me: "Olha, este... A irmã dele morreu no mês passado... Tinha uma neoplasia pélvica, demorámos imenso tempo a perceber o que se passava com ela. Andou entre o CS e a Ginecologia do Hospital tempos e tempos até aquilo se manifestar a sério. Tinha 35 anos, coitada. A mãe deles veio cá ontem, está com uma depressão, claro. Ele deve cá vir só mostrar exames. Anda no mergulho, veio cá pedir-me os exames que precisa para a licença de mergulho. Também deve andar a antidepressivos, numa situação destas... E ele não deve ter aguentado isto muito bem, já quando o pai morreu se foi muito abaixo.". Entra o doente, confirma-se tudo.
Mal acaba de sair este doente irrompe pela sala de consulta uma senhora obesa, rosada e ofegante. "Esqueceu-me da consulta de ontem, Doutora! Atenda-me lá hoje, Doutora!". Por escassos momentos fez-se difícil: "Só se for aqui com o Dr. JC! Pode ser?". A doente olhou para mim, atrapalhada, e disse que "não desfazendo Doutor, até pode ser muito bom médico, mas quem me tira a minha Doutora tira-me tudo!". Como a consulta hoje (surpreendentemente) até estava mais ou menos calma, autorizou a consulta. Seguiu-se uma explosão de abraços e beijinhos, entre os quais exclamava "É a minha Doutorazinha! Que é que eu fazia sem ela?!". Assim que ela saiu, a minha tutora disse-me que ela não tinha doença nenhuma nova, de certeza, só lá ia para fazer visita. Pude comprovar no final das consultas que ela tinha toda a razão do mundo.
Pelo meio das consultas surgem pedidos de renovação de receituário (os doentes com medicações crónicas deixam nos administrativos os medicamentos para "a Doutora fazer o favor de passar"). Entre a papelada um pedido de "certificado médico para entrar com o carro no cemitério" (esta desresponsabilização da sociedade por troca com a responsabilização do médico atingiu os limites do que eu consideraria aceitável, mas enfim...). "Então a mulher dele já morreu... Coitada, andou aqui num calvário com um linfoma... Não tem sorte nenhuma na vida, este homem, parece que lhe acontece tudo!".

Hoje saí do Centro de Saúde impressionadíssimo. Como é possível que, com uma lista enorme de utentes, a minha tutora saiba tudo sobre a vida, doenças e morte de cada um dos seus doentes?! Compreendo perfeitamente que os doentes digam, com orgulho "é a MINHA Doutora!!". De facto impressionante.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2005

Novo mês, nova vida

Ora bom, agora que já me tomam por Ginecologista/Obstetra, acabou o meu estágio na Ginecologia/Obstetrícia. Como puderam perceber pelo "cheirinho" do meu estágio que pude partilhar com vocês, foi um mês recheado de histórias interessantes, umas mais felizes que outras. Agora inicia-se um novo ciclo, que promete ser bem mais variado. Iniciei hoje o estágio de Medicina Geral e Familiar (a especialidade médica tradicionalmente chamada Clínica Geral). Durará três meses, e promete ser fonte de muitas e variadas histórias, que não são mais do que as histórias das gentes comuns, contadas pelo meu prisma.

sábado, 29 de janeiro de 2005

Sentido de humor?

Chamámos pelo intercomunicador a D. Maria. Era uma primeira consulta, de Ginecologia. Entrou uma senhora de idade, devia rondar os 75 anos, acompanhada por outra mais nova, que lhe amparava os passos. Sentou-se, lentamente, na cadeira à nossa frente, e perguntou "Então mas eu estou doente, é?". Sorrimos, perante o aparente sentido de humor da D. Maria. Quando perguntámos o que a tinha levado à consulta de Ginecologia perguntou-nos "mas afinal eu estou aonde?". Afinal parecia que a pergunta da D. Maria tinha sido sincera, não era de facto uma questão de sentido de humor. Quando questionada sobre a sua idade, a D. Maria não esteve com meias medidas: "Sei lá eu! Não me lembra. Diz aí 67? Deve ser isso, deve!". A senhora que a acompanhava corrigiu: "São 77.". Reparei então que envergava uma bata da Santa Casa da Misericórdia. Seguiram-se as perguntas da praxe, e todas levaram um ponto de interrogação à frente na ficha de consulta. Explicava a carta do Centro de Saúde que a D. Maria tinha um prolapso uterino. Isso significa que, por vários motivos entre os quais o enfraquecimento dos tecidos e músculos, o útero está "descaído" para fora da vulva, levando consigo a vagina. Mas a D. Maria não sabia, sabia lá!, se tinha ou não uma "bola" a sair "lá por baixo". Com alguma dificuldade levantámo-la da cadeira, para a deitar na marquesa de observação ginecológica. Perguntava repetidamente "Quem são estes? Onde vamos? O que é que estou aqui a fazer?", perguntas às quais dávamos a resposta, para de novo serem repetidas. Confirmava-se o diagnóstico. Além do prolapso tinha também rectocelo e cistocelo (o que quer dizer que com o útero eram arrastados para fora da vulva o recto e a bexiga). Segundo informações da acompanhante, a D. Maria não sangrava dali, e quando se falou em cirurgia prontamente encontrou a lucidez para dizer que "não preciso de nada disso, está muito bem assim, não quero saber disso!". A D. Maria não tinha família, vivia num lar da Sta. Casa da Misericórdia, e tinha doença de Alzheimer. Não sentimos necessidade de insistir com a cirurgia, enquanto não perdesse sangue, e já que não demonstrava vontade de ser operada. Voltou a sentar-se, continuando a perguntar as mesmas perguntas: "Quem são estes? Vamos a algum lado?". Depois da consulta, a acompanhante ajudou-a a levantar-se. Quando lhe vestia o casaco ela perguntou, mais uma vez, se iam sair, se iam a algum lado. Quando nos despedimos perguntou-nos quem éramos. O que lhe queríamos. Perguntou depois à acompanhante se eramos conhecidos dela. E assim foi, passo a passo, de volta para o seu lar, com o seu prolapso uterino.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2005

Olho clínico ou intuição?

A Miroslava, Ucraniana de 25 anos, estava grávida de 38 semanas. Estava a ser seguida há duas semanas nas consultas de Obstetrícia do Hospital, e vinha hoje ao Hospital para fazer CTG (cardiotocografia - é um exame que mede as contracções uterinas e a frequência cardíaca do feto). O CTG mostrou que havia já bastantes contracções do útero, e a frequência cardíaca do feto era normal e não mostrava sinais de qualquer problema com o bebé. Como a última ecografia mostrava que o bebé era pélvico (estava de "rabo virado" para a saída) resolvemos fazer uma ecografia rápida só para avaliar a posição do bebé. Confirmou-se a suspeita: era pélvico. O toque mostrava que o colo do útero não estava ainda preparado para o parto. Ponderou-se então se se deveria deixar seguir o trabalho de parto ou se se enviava a Miroslava para casa, para voltar na semana seguinte (ou mais cedo caso o trabalho de parto começasse entretanto ou surgisse algum sinal de alerta). O factor que pesou mais no sentido da permanência no Hospital foi a distância a que vivia a Miroslava: vivia a mais de 100 Km do Hospital. Foi uma decisão um bocadinho polémica, já que não havia um motivo verdadeiramente palpável para a indução do trabalho de parto (faltavam duas semanas para o termo da gravidez e a única coisa que havia de significativo era a contractilidade uterina). Mas assim foi: internou-se a Miroslava. Com a evolução da situação, tornou-se claro que a posição do bebé dentro do útero era desfavorável ao parto "normal" por via vaginal, e decidiu-se avançar com a cesariana. Não havia qualquer sinal de problemas com o bebé, e a Miroslava optou por um tipo de anestesia em que a parte inferior do corpo fica anestesiada, mas a pessoa fica acordada durante a cirurgia. Foi então para o bloco operatório, foi anestesiada, e começou a cesariana. Estavam duas Obstetras a operar, e eu estava como ajudante. Foi feita a incisão na pele, afastados os músculos abdominais, e finalmente entrou-se na cavidade abdominal. O passo seguinte foi a incisão no útero, por onde teria que saír o bebé. Foi então que, como sempre acontece, jorrou líquido amniótico da incisão feita no útero. No entanto algo não estava bem: o líquido amniótico não era da cor normal, era antes esverdeado. As únicas palavras ditas, uma vez que a Miroslava estava acordada, foram suficientes: "O líquido é meconial.". A sala gelou. Todos sabiam o que aquilo significava: existia mecónio (fezes do bebé) no líquido amniótico, o que indicava sofrimento fetal. Os Pediatras prepararam-se imediatamente para a possibilidade de ter que reanimar o bebé. Rapidamente começaram a tirar o bebé do útero. Sairam as pernas e o rabo, e algo de pouco frequente aconteceu: o útero contraíu-se violentamente, apertando o que ainda lá estava do bebé. As duas Obstetras começaram a lutar (de uma forma muito física) para tirar o bebé, mas parecia não resultar. Foi com muita dificuldade que sairam os ombros, e a cabeça parecia recusar-se a sair. O bebé começou a tentar respirar, ainda com a cabeça lá dentro, o que parecia piorar as coisas: estava a aspirar líquido amniótico e mecónio. Entretanto, e com muitíssima dificuldade, percebeu-se que o cordão umbilical estava enrolado à volta do pescoço do bebé (circular). Retirou-se a circular, mas ainda assim o bebé não saia. Na sala respirava-se uma tensão imensa, e a Miroslava começava a perguntar se estava tudo bem. Já ninguém podia evitar praguejar, apesar de baixinho, já que a situação parecia cada vez mais difícil. Da rápida remoção do bebé dependia a sua sobrevivência e o seu estado neurológico. Poderia morrer ou ficar com lesões cerebrais irreversíveis se demorasse mais alguns segundos do que era suposto. Entretanto mais um dado: uma segunda circular. Com dificuldade retirou-se a segunda circular. O cordão umbilical era fininho demais, o que justificava parcialmente o facto de o bebé estar em sofrimento e ter o líquido meconial. Com bastante força de braços, e com uma ansiedade tremenda, finalmente conseguiu-se retirar a cabeça do bebé do interior do útero. Cortei rapidamente o cordão umbilical, e em poucos segundos os Pediatras levaram o bebé em passo de corrida para o berço. Ainda no bloco, ouvi a agitação que decorria lá fora, enquanto tentavam reanimar o bebé. Entretanto, e visivelmente stressadas, as Obstetras retiraram a placenta do interior do útero, e começaram a concluir a cirurgia. Entretanto, o que trouxe um suspiro de alívio, ouvimos o bebé chorar. Significava, pelo menos, que estava vivo.

Tanto quanto é possível saber, o bebé parece estar bem. No entanto, só a longo prazo se entenderão as consequências de tão complicado trabalho de parto. É este um dos casos em que, por mais que se tenha a certeza que se fez tudo o que estava ao alcance, nunca se fica com a consciência perfeitamente tranquila. Poderá confortar um pouco, quanto muito, perguntarmo-nos o que teria acontecido se se tivesse optado por a enviar para casa. O bebé estava em sofrimento, e a distância a que vivia a Miroslava poderia comprometer o resultado de 38 semanas de ansiedade. Foi olho clínico ou intuição?

domingo, 23 de janeiro de 2005

Mais uma

Quando acabámos de observar a Luísa, que estava no termo da gravidez, chamáram-nos à porta. Era uma enfermeira do hospital, que trazia a sua sobrinha Carla para ser observada na urgência de ginecologia, a pedido dos colegas da urgência central. Perguntámos o motivo que as levava ao SU, e foi-nos dito que tinha dores pélvicas e uma anemia grave, pelo que estava até deitada numa maca. Mandámos entrar a filha, a mãe e a tia ficaram fora da sala. Antes de a observarmos fizemos as perguntas habituais. A Carla tinha 28 anos e tinha começado há alguns dias com dores pélvicas. Tinha aparecido o período menstrual, desta vez em quantidades superiores às habituais. Afirmou que o seu período menstrual era habitualmente abundante, mas desta vez tinha sido ainda mais. Não tinha tido qualquer atraso no período menstrual, afirmava claramente. Pedimos-lhe então que se deitasse na marquesa de observação. Assim que se despiu da cintura para baixo e se deitou na marquesa ginecológica surgiu um cheiro fétido, típico de uma infecção bacteriana, que imediatamente preencheu a sala com um ambiente pesado. A enfermeira, a médica e eu tivemos a mesma reacção, perfeitamente instintiva: todos franzimos a cara pela extrema intensidade do cheiro. Perguntámos se não tinha notado naquele odor fétido. Disse-nos que sim, olhou para o lado, e não disse mais nada. O ar comprometido dela e o novo dado adquirido fizeram-nos automaticamente desconfiar da veracidade da sua história. Colocámos o espéculo, e percebemos que do interior do útero, cujo colo estava dilatado, saía um material purulento e sanguinolento muito abundante. Era daí que vinha cheiro fétido. Tinha, aparentemente, uma infecção grave do útero que se designa endometrite (infecção do endométrio). Com uma pinça própria, e dada a dilatação do colo, drenámos o líquido fétido do interior do útero. Juntamente com o líquido fétido saíam massas disformes de material sólido. A ideia que aos poucos ganhava forma na nossa cabeça tornava-se cada vez mais clara. Perguntámos se não tinha engravidado e se não tinha feito qualquer manobra abortiva. Negou, com muito pouca convicção. Explicámos calmamente que não estávamos ali para criticar ou fazer juizos de valor fosse ao que fosse, que nos importava somente a saúde dela, e que precisávamos de saber a verdade para a tratarmos convenientemente. Manteve os olhos virados para o lado, e não voltou a abrir a boca. Saíu da marquesa, deitou-se na maca, e ficou numa sala a fazer soros endovenosos. O objectivo era deixar encher a bexiga para fazer uma ecografia pélvica. Algum tempo depois pudémos fazer a ecografia, e confirmar o que tinhamos visto antes: havia abundante conteúdo líquido e sólido no interior da cavidade uterina. As análises laboratoriais eram consistentes com infecção grave. Ficou internada para fazer antibiótico endovenoso.
Em termos clínicos poucas dúvidas restavam que questionassem o óbvio: a Carla tinha feito uma interrupção de gravidez, provavelmente de uma gravidez já relativamente "adiantada". A vergonha e ilegalidade do que tinha feito fizeram-na esconder o sucedido durante algum tempo, tempo suficiente para adquirir uma infecção uterina muito grave, com possível esterilidade futura. Isto, claro, se pudesse ser evitada a histerectomia (remoção do útero), tal era a extensão e gravidade da infecção. Isto para não dizer que a mera sobrevivência da Carla naquela situação não era um dado totalmente adquirido.

Esta é só mais uma das muitas histórias semelhantes que se passam neste país, de norte a sul, consequência do aborto ilegal.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005

Pânico

Estávamos a examinar a D. Maria, na urgência de Ginecologia/Obstetrícia, quando entra de rompante na sala uma mulher de aproximadamente 25 anos. Vinha a chorar compulsivamente, e não conseguia articular mais de duas palavras seguidas. Entre o choro e os soluços dizia repetidamente "Estou a abortar! Estou a abortar!". Enquanto a outra doente saía da sala, a enfermeira tentou acalma-la. Quando falámos com ela já estava um pouco mais calma, e conseguiu-nos explicar o que se passava. Há cerca de dois meses tinha descoberto que estava grávida. Tinha planeado engravidar há alguns meses, e finalmente tinha conseguido engravidar. Poucos dias depois de engravidar teve perdas de sangue pela vagina, e verificou-se que se tinha de facto tratado de um aborto. Passados dois meses notou novo atraso no período menstrual. Tinha ido nessa mesma manhã à farmácia comprar um teste rápido de gravidez. Em casa fez o teste, que deu positivo. Nessa mesma tarde notou perdas de sangue pela vagina, altura em que entrou em pânico e se dirigiu à urgência. Contas feitas, a gravidez tinha apenas 6 semanas de duração. Já mais calma, sentou-se na marquesa de observação. Introduzimos o espéculo, e as perdas sanguíneas que observámos eram mínimas, compatíveis com uma pequena hemorragia que é normal aquando da implantação do ovo na parede do útero. Confirmou que de facto tinha notado apenas uma mancha ténue de sangue na roupa interior. Foi devidamente tranquilizada , e recebeu nas mãos um "presente" que a deixou com os olhos a brilhar. Foi incapaz de esconder um enorme sorriso triunfante quando, após ter entrado nas urgências pensando que estava a abortar, levou entre as mãos o "livro verde da grávida".