Há já alguns dias ao preparar-me para ver os doentes na enfermaria, deparei-me com o processo clínico de uma velhota de 84 anos, a D. Ilda. Estava internada para investigação de uma anemia importante, com valores que a impediriam concerteza de fazer uma vida normal. Ainda por cima aos 84 anos, quando a definição de vida normal das pessoas está geralmente já alterada. Tinha ainda uma doença das válvulas do coração, que lhe limitaria concerteza ainda mais a actividade física.
Quando entrei no quarto olhei para a cama 2, onde devia estar a D. Ilda, e não a vi. Os lençóis esvoaçavam, enquanto uma auxiliar e outra senhora os desdobravam vigorosamente para fazer a cama. Olhei para o cadeirão ao lado da cama, na esperança de a encontrar, e nada. Dei uma olhadela de longe à doente da cama 3, fechada em mundos interiores, e cumprimentei a doente da cama um, a aniversariante do outro dia. Dando pela minha presença, a auxiliar que fazia a cama sorriu e disse: "Está a ver, doutor? Até já as doentes ajudam a fazer a cama!!". Olhei uma vez, sem ter percebido bem o que me havia sido dito, e voltei a olhar quando finalmente percebi. Era a D. Ilda que fazia a cama com a auxiliar, com uma genica fora de série. Comentei, banzado, a força dela, e disse em tom de brincadeira que já estava pronta para ir embora. Ela olhou para trás, e apercebendo-se do meu ar espantado exclamou: "Doutor! Eu tenho 84 anos! Veja lá se não me estraga, quero viver pelo menos até aos 100! A minha avó foi aos 120, estou nas suas mãos!". Sorri, e respondi-lhe que concerteza não seria eu a espantar-lhe a ambição!
sexta-feira, 20 de janeiro de 2006
Um cenário diferente
Há alguns dias atrás aconteceu algo no meu serviço de Medicina Interna que me surpreendeu. Uma doente de 34 anos, que nas últimas semanas nos tem dado água pela barba para perceber que doença tem, fez 35 anos. Ao saber desta notícia, e antes de algum médico a ter visto naquele dia, os meus chefes resolveram fazer-lhe uma surpresa. Pediram à secretária de unidade para comprar um bolo, pago pelos membros do serviço individualmente. A poucos minutos de iniciar um jejum necessário para um exame que ia realizar essa mesma tarde (exame esse que se revelou fulcral para o diagnóstico), todo o serviço irrompeu pelo quarto dela com o bolo e duas velas, cantando-lhe os parabéns. Chefe de Serviço, equipa médica, enfermeiros e auxiliares, todos interromperam as suas tarefas para entoar o "parabéns-a-você" em redor da cama dela, todos com uma pontinha de emoção. Também ela se emocionou (apesar de estar um pouco ensonada por causa da medicação), e agradeceu a surpresa. Um cenário diferente, nada habitual num local geralmente mais silencioso. Eu só me lembrava dos cartazes antigos em que uma enfermeira de dedo espetado pedia aos utentes "Shhhh! Está num hospital!". Mas as regras fizeram-se para ser quebradas de quando em vez, não é? E valeu a pena.
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Hospital
Ontem morreu uma cigana
Ontem morreu uma cigana.
Não era uma cigana qualquer, era uma cigana aliás muito diferente de todas as outras. Ao contrário da maioria não tinha um séquito de familiares ansiosos por saber dela. Os seus familiares não perguntavam por ela, não a visitavam no hospital. Recusaram-se aliás a aparecer quando ela já não precisava de ficar no hospital e tinha alta médica dada. Passou várias semanas internada no hospital, exclusivamente como caso social. Sem uma única visita. Nas últimas semanas estava cada vez mais distante do mundo, e ontem acabou por morrer. Ao contrário da maioria das ciganas, sozinha. Porque, ao contrário da maioria das ciganas, tinha casado com um português.
Não era uma cigana qualquer, era uma cigana aliás muito diferente de todas as outras. Ao contrário da maioria não tinha um séquito de familiares ansiosos por saber dela. Os seus familiares não perguntavam por ela, não a visitavam no hospital. Recusaram-se aliás a aparecer quando ela já não precisava de ficar no hospital e tinha alta médica dada. Passou várias semanas internada no hospital, exclusivamente como caso social. Sem uma única visita. Nas últimas semanas estava cada vez mais distante do mundo, e ontem acabou por morrer. Ao contrário da maioria das ciganas, sozinha. Porque, ao contrário da maioria das ciganas, tinha casado com um português.
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Hospital
domingo, 8 de janeiro de 2006
O Natal dos hospitais
O verdadeiro Natal dos Hospitais pouco tem de Tony Carreira, Anjos ou Toy. É feito de muitas histórias tristes, que nem a aparente alegria despreocupada da música dita "pimba" consegue esconder.
O Serviço de Urgência estava, no dia 23 de Dezembro, repleto de "utentes". Uso também eu o popular eufemismo porque havia de facto bastantes utentes-não-doentes. O tradicional despejo de Natal, geralmente invisível aos olhos da maioria, apresentava-se em todo o seu esplendor no chamado "corredor externo" do SO. Em fila indiana, as macas com os chamados casos sociais acumulavam-se. Os processos clínicos eram inequívocos, os motivos de internamento eram os mais estranhos, mas todos gritavam uma palavra: abandono. Centenas de "velhotes" são todos os anos abandonados no Serviço de Urgência, sem história pregressa, sem vida de relação com o exterior, sem família. Correcção: com família desertora. O Natal é o culminar desta tendência, e este não foi excepção. Na maca 3 estava o Sr. Amaro, trazido pela família por "mau-hálito". O estado de desnutrição e desidratação, aliado ao facto de o Sr. Amaro viver num mundo apenas partilhado consigo mesmo, fechado para o exterior, obrigava à realização de análises laboratoriais. O mau-hálito não se confirmou, e a promessa de permanência para avaliação laboratorial encorajou os familiares ao desaparecimento. O número de telefone falso obrigou à permanência do Sr. Amaro na maca 3 do SO, rotulado como caso social, apesar da practicamente normal avaliação analítica...
Uma outra face do Natal no hospital é o internamento. Na cama 2, a D. Josefa olhou para mim com um ar desolado, no dia 24, quando lhe disse que não estaria ainda em condições de ir passar o Natal a casa. A dependência de oxigénio que uma pneumonia lhe causava impedia-a de se afastar do hospital. A sua família iria concerteza passar a consoada sem ela, uma consoada mais triste e sombria que as anteriores. No entanto a D. Raquel, na cama 3, estava já clinicamente melhorada - também ela de uma pneumonia. Estava em condições de, ela sim, passar a consoada com a família. Quando lho disse não sorriu, fez antes uma cara apreensiva. Explicou-me que as filhas estavam na Bélgica, que vivia sozinha, e que a relativa dependência de terceiros que ainda apresentava não lhe permitia ir para casa. A D. Josefa, quando saí do quarto, deixava cair uma lágrima de triste revolta pela face.
Este é o verdadeiro Natal dos Hospitais, ou antes uma pequena amostra...
O Serviço de Urgência estava, no dia 23 de Dezembro, repleto de "utentes". Uso também eu o popular eufemismo porque havia de facto bastantes utentes-não-doentes. O tradicional despejo de Natal, geralmente invisível aos olhos da maioria, apresentava-se em todo o seu esplendor no chamado "corredor externo" do SO. Em fila indiana, as macas com os chamados casos sociais acumulavam-se. Os processos clínicos eram inequívocos, os motivos de internamento eram os mais estranhos, mas todos gritavam uma palavra: abandono. Centenas de "velhotes" são todos os anos abandonados no Serviço de Urgência, sem história pregressa, sem vida de relação com o exterior, sem família. Correcção: com família desertora. O Natal é o culminar desta tendência, e este não foi excepção. Na maca 3 estava o Sr. Amaro, trazido pela família por "mau-hálito". O estado de desnutrição e desidratação, aliado ao facto de o Sr. Amaro viver num mundo apenas partilhado consigo mesmo, fechado para o exterior, obrigava à realização de análises laboratoriais. O mau-hálito não se confirmou, e a promessa de permanência para avaliação laboratorial encorajou os familiares ao desaparecimento. O número de telefone falso obrigou à permanência do Sr. Amaro na maca 3 do SO, rotulado como caso social, apesar da practicamente normal avaliação analítica...
Uma outra face do Natal no hospital é o internamento. Na cama 2, a D. Josefa olhou para mim com um ar desolado, no dia 24, quando lhe disse que não estaria ainda em condições de ir passar o Natal a casa. A dependência de oxigénio que uma pneumonia lhe causava impedia-a de se afastar do hospital. A sua família iria concerteza passar a consoada sem ela, uma consoada mais triste e sombria que as anteriores. No entanto a D. Raquel, na cama 3, estava já clinicamente melhorada - também ela de uma pneumonia. Estava em condições de, ela sim, passar a consoada com a família. Quando lho disse não sorriu, fez antes uma cara apreensiva. Explicou-me que as filhas estavam na Bélgica, que vivia sozinha, e que a relativa dependência de terceiros que ainda apresentava não lhe permitia ir para casa. A D. Josefa, quando saí do quarto, deixava cair uma lágrima de triste revolta pela face.
Este é o verdadeiro Natal dos Hospitais, ou antes uma pequena amostra...
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Hospital
quinta-feira, 29 de dezembro de 2005
O exame, o blog
O exame foi. Não foi facil, não foi dificil. Foi. Mas a recompensa de todo o estudo valeu a pena, a nota estimada (segundo a chave provisória de correcção) acabou por ser bastante boa, e deverá rondar os 17,5 valores. A minha cara-metade foi a minha nota-metade, e teve a mesmíssima nota que eu! Será portanto mais fácil decidir o futuro. A principal recompensa, essa, é regressar à vida como disse no post anterior.
O blog regressará agora, espero, à sua antiga forma. Tenho trabalhado que nem um doido (muito melhor do que estudar que nem um doido), e vou tendo muitas histórias para contar! A ressaca do exame já passou, o Natal já passou, e as festas estão a acabar. Podem, por isso, contar com mais posts (um por semana é uma vergonha...). Palavra de escuteiro!!
O blog regressará agora, espero, à sua antiga forma. Tenho trabalhado que nem um doido (muito melhor do que estudar que nem um doido), e vou tendo muitas histórias para contar! A ressaca do exame já passou, o Natal já passou, e as festas estão a acabar. Podem, por isso, contar com mais posts (um por semana é uma vergonha...). Palavra de escuteiro!!
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The Long Way
De regresso!
Finalmente de regresso à vida! De regresso aos jornais, de regresso aos livros, de regresso à família, de regresso ao trabalho duro, de regresso ao blog!
terça-feira, 20 de dezembro de 2005
quinta-feira, 15 de dezembro de 2005
Run, Forrest, Run!
Sinto-me um pouco como o Forrest Gump a tentar correr para a meta com aquele metal todo nas pernas... É que faltam só 5 dias para o fatídico dia em que todo o meu futuro se decide. O facto de já ter comemorado um aniversário da data em que comecei a estudar para este exame (vide aqui a primeira referência neste blog ao dito monstro) deixa-me um sabor amargo na boca, e a sensação de que é o mundo, e não o estudo, que vai acabar no dia 20... As minhas costas estão numa desgraça, estou cada vez mais pitosga, e as minhas olheiras aproximam-se perigosamente do pescoço. Acham que 8 cafés por dia são demais? O médico diz-me que sim, mas o que sabe essa gente dessas coisas? ;)
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The Long Way
terça-feira, 6 de dezembro de 2005
Pedro (2)
Não poderia, infelizmente, ter vindo mais a propósito. No dia 1 de Dezembro, dia mundial da luta contra a SIDA, reencontrei o Pedro. Contei-vos em Abril deste ano o dia em que o conheci.
Estagiava na altura no Centro de Saúde, mais precisamente no CDP (Centro de Doenças Pulmonares). Durante o estágio em Medicina Interna (que iniciei em Setembro deste ano) encontrei-o por várias vezes internado no serviço de Infecciologia. Tinha por hábito fumar nas escadas de acesso ao serviço, onde o encontrava muitas vezes com alguns outros doentes. Vi-o também algumas vezes a jogar às cartas e a beber café com o Sergei. Manteve sempre a aparência de criança doente que vos descrevi em Abril, mas conseguia a cada encontro estar mais magro, com as feições mais angulosas. A doença que injectou para dentro de si parecia consumi-lo dia a dia. Umas atrás das outras, as infecções oportunistas que a SIDA faz surgir pareciam consumi-lo com a mesma voracidade com que ele fumava os seus cigarros no corredor.
Mas na quinta-feira passada, dia mundial da luta contra a SIDA, encontrei o Pedro no SO do Serviço de Urgência. Estava magro como não se imagina ser possível, sem músculos que lhe permitissem andar. As pernas e os braços encarquilhados, querendo retomar a posição fetal. A respiração ofegante, o olhar incerto, a linguagem quase imperceptível. Pedia por água, debatia-se com as secreções para conseguir falar. A fralda ajudava a reduzi-lo ao mínimo que pode ser considerado um ser humano. Já tinha por várias vezes arrancado os soros, e tinha por isso as mãos amarradas. Alarguei um pouco as cordas, o suficiente para ele tomar uma posição um pouco mais confortável, mas que não lhe permitisse voltar a arrancar os soros. O Pedro espera pela morte. Oito meses depois de ter ido pelo seu pé à consulta do CDP, poucos meses depois de o ver deambular pelo corredor agarrado ao suporte do soro, o Pedro espera agora pela morte no SO. A SIDA estava a ganhar a luta, no dia mundial da luta contra a SIDA.
Estagiava na altura no Centro de Saúde, mais precisamente no CDP (Centro de Doenças Pulmonares). Durante o estágio em Medicina Interna (que iniciei em Setembro deste ano) encontrei-o por várias vezes internado no serviço de Infecciologia. Tinha por hábito fumar nas escadas de acesso ao serviço, onde o encontrava muitas vezes com alguns outros doentes. Vi-o também algumas vezes a jogar às cartas e a beber café com o Sergei. Manteve sempre a aparência de criança doente que vos descrevi em Abril, mas conseguia a cada encontro estar mais magro, com as feições mais angulosas. A doença que injectou para dentro de si parecia consumi-lo dia a dia. Umas atrás das outras, as infecções oportunistas que a SIDA faz surgir pareciam consumi-lo com a mesma voracidade com que ele fumava os seus cigarros no corredor.
Mas na quinta-feira passada, dia mundial da luta contra a SIDA, encontrei o Pedro no SO do Serviço de Urgência. Estava magro como não se imagina ser possível, sem músculos que lhe permitissem andar. As pernas e os braços encarquilhados, querendo retomar a posição fetal. A respiração ofegante, o olhar incerto, a linguagem quase imperceptível. Pedia por água, debatia-se com as secreções para conseguir falar. A fralda ajudava a reduzi-lo ao mínimo que pode ser considerado um ser humano. Já tinha por várias vezes arrancado os soros, e tinha por isso as mãos amarradas. Alarguei um pouco as cordas, o suficiente para ele tomar uma posição um pouco mais confortável, mas que não lhe permitisse voltar a arrancar os soros. O Pedro espera pela morte. Oito meses depois de ter ido pelo seu pé à consulta do CDP, poucos meses depois de o ver deambular pelo corredor agarrado ao suporte do soro, o Pedro espera agora pela morte no SO. A SIDA estava a ganhar a luta, no dia mundial da luta contra a SIDA.
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Hospital
sexta-feira, 2 de dezembro de 2005
Insónias
Há coisas que não se esquecem. E a situação que vivi ontem é uma delas. Daquelas que nos fazem custar a adormecer.
Pelas 12h00 de ontem, no Serviço de Urgência, um "triiiiim!" fez médicos, enfermeiros e auxiliares levantarem-se das cadeiras. Era a campainha da reanimação, que avisa da chegada de um doente grave. Tratava-se de uma mulher jovem, com 30 anos, que dizia, com as poucas forças que lhe restavam, que tinha uma falta de ar imensa. Conseguiu contar aos médicos que a falta de ar tinha começado de forma súbita, e conseguiu ainda responder a algumas perguntas relativas a factores de risco para algumas doenças que podem ser responsáveis por um quadro assim. Tentava, desesperada, respirar o mais profundamente possível, e quando percebeu que o mundo em seu redor lhe fugia disse "Vou Morrer". A tensão arterial descia a pique, o coração batia muito depressa, e ela rapidamente perdeu os sentidos. De seu redor, os auxiliares despiam-na, os enfermeiros tentavam desesperadamente canalizar uma veia, um médico fazia-lhe um ECG e um outro fazia intubação orotraqueal (colocação de um tubo na traqueia para conexão a um ventilador). O Cardiologista de urgência rapidamente chegou com o aparelho de ecocardiografia, e as peças do puzzle começavam a organizar-se: tratava-se provavelmente de um tromboembolismo pulmonar maçiço (um coágulo de grandes dimensões - formado na corrente sanguínea, geralmente nas grandes veias dos membros inferiores - desloca-se e oclui os grandes vasos que entram nos pulmões). O ecocardiograma mostrava várias alterações compatíveis com esse diagnóstico, e mostrava - segundo a segundo - um agravamento progressivo da função cardíaca. Rapidamente os pulsos deixaram de se sentir (um sinal claro que a função do coração era já muito baixa), e um médico iniciou massagem cardíaca. O monitor cardíaco mostrava agora que o coração batia cada vez mais devagar, e o ecocardiograma mostrou que batia cada vez pior. No meio de todos estes passos iam sendo administrados vários fármacos que tinham como objectivo melhorar a função do coração, e assim que o diagnóstico se tornou claro foi pedido ao enfermeiro que preparasse a trombólise. A trombólise consiste num farmaco capaz de destruir o coágulo que obstruia as artérias pulmonares, de forma a corrigir o problema que estava na base de todo aquele quadro catastrófico. Estava já a trombólise pronta para a administração quando uma enfermeira diz "esperem!!"... Tinha acabado de fazer a intubação naso-gástrica (colocação de um tubo até ao estômago para esvazia-lo do seu conteúdo), e esta drenava o que parecia ser sangue vivo. Em poucos segundos a incerteza esbateu-se: era sangue vivo que saía do estômago, e em quantidade significativa. Um frio gélido percorreu a sala. O problema não era o sangue em si, mas o facto de a hemorragia activa ser uma contraindicação absoluta para a trombólise. Ou seja, aquele achado tinha acabado de contraindicar a única coisa que poderia reverter aquele quadro gravíssimo, e que aguardava apenas o carregar de um botão para ser iniciada... As manobras de reanimação continuavam, entre a colocação de um catéter venoso central na veia femural (um acesso venoso para a administração de fármacos e soros) e uma gasimetria arterial na artéria femural. Rendi o colega que estava a fazer massagem cardíaca, e subi para cima do estrado. Entre algumas dezenas de compressões o Cardiologista fazia ecocardiograma, que mostrava que o coração já não era capaz de contrair. O monitor mostrava ainda complexos (que denotam a actividade eléctrica do coração), mas já muito espaçados. Tinham já passado 45 minutos desde a entrada da rapariga no Serviço de Urgência. Em poucos segundos surgiu a linha isoeléctrica (a linha plana que mostra a inexistência de actividade eléctrica), e o médico mais velho disse o que todos pensámos: "Acabou". Eu tinha ainda as mãos colocadas sobre o peito da rapariga, de pé em cima do estrado. Perguntei, pura retórica, "acabou?". "Sim, acabou" responderam-me. Uma dezena de profissionais de saúde baixavam os braços, em silêncio. Um silêncio aterrador, cortado apenas pelo barulho que alguns pares de luvas faziam ao serem tirados e deitados para o lixo. Não o "piiiiiii" constante que nos habituamos a ver nos filmes, mas em sua substituição um silêncio enorme. Desci do estrado, endireitei as costas, e tirei também eu as luvas. Em silêncio.
Pelas 12h00 de ontem, no Serviço de Urgência, um "triiiiim!" fez médicos, enfermeiros e auxiliares levantarem-se das cadeiras. Era a campainha da reanimação, que avisa da chegada de um doente grave. Tratava-se de uma mulher jovem, com 30 anos, que dizia, com as poucas forças que lhe restavam, que tinha uma falta de ar imensa. Conseguiu contar aos médicos que a falta de ar tinha começado de forma súbita, e conseguiu ainda responder a algumas perguntas relativas a factores de risco para algumas doenças que podem ser responsáveis por um quadro assim. Tentava, desesperada, respirar o mais profundamente possível, e quando percebeu que o mundo em seu redor lhe fugia disse "Vou Morrer". A tensão arterial descia a pique, o coração batia muito depressa, e ela rapidamente perdeu os sentidos. De seu redor, os auxiliares despiam-na, os enfermeiros tentavam desesperadamente canalizar uma veia, um médico fazia-lhe um ECG e um outro fazia intubação orotraqueal (colocação de um tubo na traqueia para conexão a um ventilador). O Cardiologista de urgência rapidamente chegou com o aparelho de ecocardiografia, e as peças do puzzle começavam a organizar-se: tratava-se provavelmente de um tromboembolismo pulmonar maçiço (um coágulo de grandes dimensões - formado na corrente sanguínea, geralmente nas grandes veias dos membros inferiores - desloca-se e oclui os grandes vasos que entram nos pulmões). O ecocardiograma mostrava várias alterações compatíveis com esse diagnóstico, e mostrava - segundo a segundo - um agravamento progressivo da função cardíaca. Rapidamente os pulsos deixaram de se sentir (um sinal claro que a função do coração era já muito baixa), e um médico iniciou massagem cardíaca. O monitor cardíaco mostrava agora que o coração batia cada vez mais devagar, e o ecocardiograma mostrou que batia cada vez pior. No meio de todos estes passos iam sendo administrados vários fármacos que tinham como objectivo melhorar a função do coração, e assim que o diagnóstico se tornou claro foi pedido ao enfermeiro que preparasse a trombólise. A trombólise consiste num farmaco capaz de destruir o coágulo que obstruia as artérias pulmonares, de forma a corrigir o problema que estava na base de todo aquele quadro catastrófico. Estava já a trombólise pronta para a administração quando uma enfermeira diz "esperem!!"... Tinha acabado de fazer a intubação naso-gástrica (colocação de um tubo até ao estômago para esvazia-lo do seu conteúdo), e esta drenava o que parecia ser sangue vivo. Em poucos segundos a incerteza esbateu-se: era sangue vivo que saía do estômago, e em quantidade significativa. Um frio gélido percorreu a sala. O problema não era o sangue em si, mas o facto de a hemorragia activa ser uma contraindicação absoluta para a trombólise. Ou seja, aquele achado tinha acabado de contraindicar a única coisa que poderia reverter aquele quadro gravíssimo, e que aguardava apenas o carregar de um botão para ser iniciada... As manobras de reanimação continuavam, entre a colocação de um catéter venoso central na veia femural (um acesso venoso para a administração de fármacos e soros) e uma gasimetria arterial na artéria femural. Rendi o colega que estava a fazer massagem cardíaca, e subi para cima do estrado. Entre algumas dezenas de compressões o Cardiologista fazia ecocardiograma, que mostrava que o coração já não era capaz de contrair. O monitor mostrava ainda complexos (que denotam a actividade eléctrica do coração), mas já muito espaçados. Tinham já passado 45 minutos desde a entrada da rapariga no Serviço de Urgência. Em poucos segundos surgiu a linha isoeléctrica (a linha plana que mostra a inexistência de actividade eléctrica), e o médico mais velho disse o que todos pensámos: "Acabou". Eu tinha ainda as mãos colocadas sobre o peito da rapariga, de pé em cima do estrado. Perguntei, pura retórica, "acabou?". "Sim, acabou" responderam-me. Uma dezena de profissionais de saúde baixavam os braços, em silêncio. Um silêncio aterrador, cortado apenas pelo barulho que alguns pares de luvas faziam ao serem tirados e deitados para o lixo. Não o "piiiiiii" constante que nos habituamos a ver nos filmes, mas em sua substituição um silêncio enorme. Desci do estrado, endireitei as costas, e tirei também eu as luvas. Em silêncio.
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Hospital
segunda-feira, 7 de novembro de 2005
Um momento como este...


... e eu a estudar... Vida de cão.
(A foto perde pela dimensão reduzida, se clicarem nela vêm-na um bocadinho melhor)
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Fotos,
The Long Way
domingo, 6 de novembro de 2005
Outra visita obrigatória
Tem estado ali a repousar na lista de blogs... Quietinho, silencioso. Quem se atreveu a carregar no link ter-se-á certamente assustado, com o barulho que vem do lado de lá. Eu gosto, gosto muito. E por isso merece destaque:
Ai-Dia
Ai-Dia
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